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terça-feira, 20 de março de 2012

A rejeição dói mesmo!!!


O sentimento de pertença e de inclusão social é um importante factor de bem-estar para todos nós. Mas sabemos bem que nem sempre nos sentimos incluídos ou integrados em alguns contextos relacionais e/sociais.


Quando nos sentimos excluídos de um grupo ou de uma actividade ficamos magoados, feridos nos nossos sentimentos...

Pois bem, a ciência tem mostrado que temos toda a razão: a rejeição dói mesmo!

Ao que parece, alguns dos mecanismos neuronais envolvidos na dor física estarão também envolvidos na dor da rejeição.

Para verificar isto, os investigadores utilizaram a ressonância magnética funcional para estudar a rejeição social. O objectivo era perceber se as regiões cerebrais que são activadas  na rejeição social eram similares às que são encontradas em estudos da dor física.

Neste estudo foram estudadas as respostas neuronais em dois tipos de exclusão social: explícita e implícita. Além da ressonância funcional durante as tarefas propostas, os participantes preenchiam questionários após as tarefas para avaliar o quanto se tinham sentido excluídos.

Resumindo os resultados, na exclusão social é encontrado um padrão de activação cerebral muito similar ao que é encontrado na dor física.

Os autores deste estudo deixam-nos a mensagem de que o facto de a dor da rejeição ser parecida com a dor física a nível cerebral tem também a função de alertar-nos para as feridas nas nossas ligações e relações sociais. Com este alerta, poderemos tomar medidas para tratar destas feridas.

Sugerem ainda que este tipo de estudos podem ajudar a confirmar a importância das relações e do apoio daqueles que nos rodeiam quer na dor física, quer na dor social e também a perceber como dói tanto perder alguém que amamos...

É mesmo caso para dizer que depois de uma rejeição ou de uma perda afectiva temos a necessidade e o direito de “lamber as nossas feridas”!

Vera Martins

Referência:

Does Rejection Hurt? An fMRI Study of Social Exclusion
Naomi I. Eisenberger, Matthew D. Lieberman, Kipling D. Williams
10 OCTOBER 2003 VOL 302 SCIENCE

Artigo completo para consulta em:
http://www.rickhanson.net/wp-content/files/papers/RejectionHurt.pdf

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Ano Novo - O Lobo Frontal também pode ir ao ginásio!

Não sou particularmente apreciadora desta quadra festiva em si, embora adore bolo-rei e outras coisas boas que só se comem no Natal mas terminado o Natal, acabo sempre por ficar com um sentimento de esperança e alegria...

É que parece que o Natal e o Ano Novo vêm fechar um ciclo e, portanto, nesta altura podemos ter a esperança de que ao fechar um ciclo  vamos abrir outro. Acabo por sentir tudo como uma fase de renovação, como se ficasse pronta para nascer de novo!

Esta ideia de renovação chega logo com o Solstício de Inverno pois a seguir a ele começam novamente os dias a aumentar. Ou seja, chegada a maior noite do ano, começamos a caminhar outra vez para dias com mais horas de luz solar. Só este pormenor faz-me logo sentir que a Natureza está a contribuir para os nosso desejos de mudança.

Parece que nestes dias entre o Natal e o Ano Novo andamos  a incubar as mudanças que vamos querer fazer. Como se fosse uma semana para inspirar fundo, fundo, muito, muito ar para depois no Ano Novo estarmos cheios de fôlego para novos projectos, novos amores, novas amizades, novas conquistas e realizações!

Quem não anda na azáfama mental de fazer projectos? O que quero mudar? O que vou fazer de diferente?

Há até quem escreva os seus planos e decisões para o novo ano, sejam muitos ou poucos. Quando ficam escritos é como se se tornassem oficiais e, se não escapam do papel também já não fugimos de os colocar em prática.

E é mesmo isso, se tivesse que escolher palavras para esta época do ano, estas seriam: esperança, renovação, projectos e audácia!

Em geral, são dias em que nos permitimos sentir audazes, empreendedores, cheios de energia, de motivação e de imaginação. Começamos por fazer um balanço do ano e, inevitavelmente, acabamos por nos dedicar mais à planificação do próximo ano do que à avaliação deste. E ainda bem que assim é!

E mesmo quando nos dizem: “Não adianta fazer planos de ano novo porque dos planos que fiz o ano passado não pus nada em prática”, isso não nos interessa lá muito, agora é “outro” ano, já não é do ano passado que se trata.

Não é por acaso que o que nos distingue dos outros animais é o facto de sermos dotados de lobo frontal. Esta fantástica parte que a Natureza resolveu acrescentar ao nosso cérebro torna-nos capazes de nos projectarmos no futuro e fazer planos. Este sim, foi um verdadeiro presente, um dos melhores.

Esta dádiva chamada capacidade de se projectar no futuro permite ao ser humano desenvolver-se no sentido de fazer mais e melhor da próxima vez, usando o que aprendeu para conceber melhores estratégias para os seus projectos futuros.

A proximidade do Ano Novo é uma época por excelência para exercitarmos o nosso lobo frontal, o cérebro agradece e de certeza que o Mundo também.

Por isso, nestes dias que restam, aproveite para por o lobo frontal no ginásio e só o deixe sair de lá quando já estiver bem musculado!

Desejo-lhe um fim de ano com muitos e bons projectos e um novo ano cheio de realizações!

Vera Martins

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O “Efeito Mozart” - como a música encanta o nosso cérebro

O “Efeito Mozart” é um termo abrangente que se refere ao poder que a música tem para melhorar a saúde, a educação e o bem-estar geral. A investigação com a música de Mozart teve início em França no final da década de 50, quando o Dr. Alfred Tomatis iniciou as suas experiências com estimulação auditiva para crianças com problemas de comunicação. Nos anos 90 já era possível encontrar centenas de centros em todo o mundo que usavam a música de Mozart para ajudar as crianças com dislexia, perturbações da fala e autismo.

Também nos anos 90, na Universidade da Califórnia começaram a ser realizados estudos com a música de Mozart para avaliar a inteligência espacial. Em 2001, em Inglaterra, outros estudos foram iniciados para avaliar os seus efeitos na Epilepsia.

Mas podemos então perguntar  “Porquê a música de Mozart?”

Têm sido apontadas características como a clareza, a forma, a excelência e a frequência para seleccionar as músicas. Com base no trabalho do Dr. Tomatis foi escolhida a música com frequências altas para estimular o cérebro. Por outro lado, se o objectivo for o relaxamento as composições são mais lentas e não incluem as frequências altas. Ou seja, as músicas são seleccionadas de acordo com várias características da música mas também pelo tipo de resposta fisiológica e psicológica que suscitam, tendo assim efeito sobre as respostas físicas e emocionais.

Em contexto clínico os estudos indicam que a música pode reduzir o stress causado pelo estado de doença, revitalizar, servir de inspiração aos doentes e reduzir a dor. Não se trata de uma cura para a doença, no entanto há já bastante investigação a comprovar a importância da estimulação auditiva na promoção da saúde.

O ouvido desempenha funções essenciais para o equilíbrio, a linguagem, a expressão e a orientação espacial. Há várias áreas do cérebro que são sensíveis à música e por isso faz sentido considerar que esta possa ser muito útil e eficaz em contexto terapêutico.

Sabe-se agora que estes resultados não são específicos das composições de Mozart e que há critérios de eficácia importantes que são encontrados também em outras composições. São necessários mais estudos para dar consistência a estes resultados mas é de notar alguns dados sobre o Efeito Mozart por exemplo na Epilepsia, nos quais se verificou que pacientes com epilepsia que ouviram uma determinada sonata de Mozart tiveram uma diminuição significativa na actividade epileptiforme, verificada por Electroencefalograma (EEG).  Também através de estudos de EEG, foi possível verificar que a mesma sonata de Mozart melhorava a sincronia cerebral e alterava as ondas cerebrais em determinadas áreas.

Com o tempo e os avanços na investigação têm sido identificadas explicações com base neurológica, psicológica e sensorial. No entanto, os resultados do Efeito Mozart são ainda controversos e é importante continuar a investigação nesta área. Mas este percurso tem permitido reforçar a ideia de que a música é de extrema importância para o nosso cérebro e tem efeitos importantes na regulação física e emocional.

É necessário ler os resultados dos estudos com a devida cautela e com bom senso, mas penso que é positivo manter a receptividade para o papel que a música pode ter na saúde e bem-estar em geral, assim como na aprendizagem e aquisição de competências cognitivas. A música é sem dúvida uma ferramenta valiosa e acessível a todos, que pode e deve estar presente  na nossa vida (em casa, na escola, no trabalho, no lazer, nos centros terapêuticos, etc.).

Vera Martins

Referências
The Mozart Effect, Journal of the Royal Society of Medicine, Vol. 94, April 2001, pp 170 - 172.
The Mozart Effect, Tapping the Power of Music to Heal the Body, Strengthen the Mind and Unlock the Creative Spirit. Citado em http://www.mozarteffect.com/


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Cérebro e Depressão


Já lá vai o tempo em que se pensava que estar ou não deprimido era uma questão de “força de vontade”. Com o avanço da tecnologia é hoje possível perceber melhor o que se passa no nosso cérebro e qual a forma mais adequada de tratar dificuldades emocionais e comportamentais. E, na maioria dos casos, estamos a falar de psicoterapia e não de terapêutica medicamentosa, embora em alguns casos esta seja necessária e ainda bem que existe. Por exemplo, sabe-se hoje que o sistema límbico é uma estrutura cerebral (localizada mais ou menos no centro do cérebro) que tem um papel de grande relevância na regulação emocional.


O Dr. Daniel G. Amen é um médico Americano que tem estudado a relação entre o funcionamento do cérebro e os comportamentos, emoções e patologias que os seus pacientes manifestam. Para isso, na sua prática clínica tem recorrido ao SPECT (Single Photon Emission Computed Tomography) para ver, no verdadeiro sentido da palavra, o modo como o cérebro dos seus pacientes funciona de forma a refinar o diagnóstico e escolher o tratamento mais adequado.


E falando em depressão é importante falar um pouco mais sobre o sistema límbico. O Dr. Amen refere como funções desta estrutura cerebral:


- estabelecer o tom emocional da mente;
- filtrar eventos externos através dos estados internos(criando o colorido emocional);
- marcar os eventos como importantes internamente;
- armazenar as memórias com forte carga emocional;
- modular a motivação;
- controlar o apetite e os ciclos do sono;
- promover os laços afectivos;
- processar directamente o sentido do olfacto;
- modular a líbido;


Ora, se o sistema límbico tem a seu cargo estas funções, alguma dificuldade ou desregulação destas poderá dar origem a problemas mais ou menos específicos. Digo “poderá” porque nada no ser humano é linear.


Assim, o Dr. Amen refere como manifestações possíveis de problemas no sistema límbico:


- perturbações do humor, irritabilidade e depressão;
- aumento de pensamentos negativos, pessimismo;
- percepção negativa dos acontecimentos;
- diminuição da motivação, menor interesse por actividades que eram consideradas interessantes;;
- imersão em emoções negativas, choro frequente, ideação suicida, baixa auto-estima;
- problemas de apetite e de sono (a mais ou a menos);
- resposta sexual diminuida ou aumentada;
- isolamento social, falta de interesse pelos outros;


Está a reconhecer estes sintomas? Todos eles podem estar presentes na Depressão com maior ou menor intensidade.


É importante salientar que o facto de o problema estar associado a uma possível desregulação biológica (cerebral), não significa que é irreversível e que não há nada a fazer. Este tipo de alteração pode ser revertido para alcançar novamente um estado de “regulação” através de mudanças nos nossos pensamentos e comportamentos. Isto requer alterações nos nossos padrões relacionais, no estilo de vida e outros factores, mas é possível conquistar o equilíbrio desejado.


A psicoterapia tem um papel fundamental nesta regulação biológica que tem reflexos no nosso bem-estar emocional. E tendo estes conhecimentos ficamos com ferramentas para lidar de outra forma com os problemas que nos preocupam e que podem tornar os nossos dias mais cinzentos.


O mais importante é nunca desistirmos do nosso bem-estar!


Vera Martins


Referência: Change your Brain Change your Life, Daniel G. Amen, 2010, London: Piatkus.